Império da IA: Karen Hao revela como a inteligência artificial ameaça a democracia e cria novo colonialismo tecnológico
Karen Hao investiga como a expansão da indústria da inteligência artificial impõe impactos sociais, ambientais e políticos.
Karen Hao investiga como a expansão da indústria da inteligência artificial impõe impactos sociais, ambientais e políticos.
O livro que conecta inteligência artificial ao colonialismo moderno
Karen Hao, jornalista especializada em tecnologia com passagens pelo The Wall Street Journal e MIT Technology Review, lançou o livro "Empire of IA" (Império da IA), no qual analisa as dinâmicas da indústria contemporânea da inteligência artificial (IA). Seu foco principal é a empresa OpenAI, criadora do ChatGPT. Hao traça um paralelo entre o crescimento acelerado da IA, a extração intensa de recursos naturais e humanos, e as práticas históricas do colonialismo. Ela argumenta que corporações de tecnologia estão configurando um novo tipo de império digital, dominando dados, territórios e corpos, num modelo de exploração que lembra a dominação colonial, sem, porém, o uso direto da violência tradicionalmente associada ao colonialismo.
A lógica do crescimento acelerado e seus custos ambientais
A jornalista destaca que a trajetória atual da inteligência artificial está centrada em uma estratégia de "crescimento a todo custo", especialmente em Silicon Valley. Isso inclui o uso massivo de dados públicos e protegidos — como livros, artigos científicos, obras artísticas e conteúdos da internet — para treinamento de modelos de IA. Esse processo exige grandes supercomputadores, que chegam a ocupar áreas equivalentes a dezenas ou até centenas de campos de futebol, consumindo vastas quantidades de energia. Essa escalada não é apenas uma questão técnica, mas tem consequências ambientais, sociais e econômicas complexas.
Consumo energético, uso da água potável e tensões sociais
Um relatório da consultoria McKinsey alerta que, se o ritmo atual de expansão da infraestrutura necessária para suportar os sistemas de IA continuar, nos próximos cinco anos será preciso fornecer energia global equivalente a duas a seis vezes o consumo anual do estado da Califórnia — que tem cerca de 40 milhões de habitantes. A maior parte dessa energia vem de fontes fósseis, o que agrava as emissões de gases poluentes e impacta o clima. Além do consumo energético, esses centros de dados exigem grandes volumes de água potável para refrigeração, pois o uso de outras águas pode danificar equipamentos ou gerar proliferação bacteriana. Em muitos casos, essa água é retirada diretamente das redes públicas de abastecimento, inclusive em regiões já afetadas por escassez hídrica, como certos locais no Chile e no Quênia. Essa prática provoca tensões com as comunidades locais, que muitas vezes não veem benefícios diretos e se mobilizam contra a instalação desses centros.
Exploração laboral em países do Sul Global
Outro aspecto ressaltado no livro é a exploração dos trabalhadores envolvidos nos processos de preparação e curadoria de dados usados para treinar os modelos de IA, chamados de 'data annotation'. Empresas terceirizadas, frequentemente baseadas em países do Sul Global, contratam trabalhadores para limpar, analisar e classificar grandes volumes de textos e imagens, incluindo conteúdos violentos e perturbadores. Exemplos incluem trabalhadores no Quênia que recebem baixos salários para realizar essa tarefa, que pode gerar sérios impactos psicológicos. Enquanto isso, executivos e pesquisadores nas sedes das corporações, localizadas em centros tecnológicos privilegiados como Silicon Valley, recebem remunerações milionárias, reforçando desigualdades econômicas e sociais globais associadas às práticas coloniais históricas.
A interseção entre inteligência artificial, forças militares e governos
Karen Hao também destaca a crescente aproximação entre as empresas de inteligência artificial e o complexo militar-industrial dos Estados Unidos. Devido ao elevado custo das tecnologias — orçados em centenas de bilhões de reais apenas nos últimos anos —, as empresas buscam contratos militares para recuperar investimentos substanciais. Essa cooperação pode resultar na aplicação das tecnologias de IA em vigilância, controle social e potencial uso em conflitos. Em contrapartida, o governo americano utiliza seu apoio financeiro e regulatório à indústria de IA como instrumento para manter sua influência global. Assim, a militarização da IA reforça dinâmicas de poder geopolítico e comercial, enquanto amplia os debates sobre ética, privacidade e democracia em todo o mundo.
Informações editoriais
Fonte: Democracy Now!