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Uso excessivo de IA preocupa por reduzir habilidades profissionais, indicam estudos recentes

Pesquisas recentes indicam que a crescente dependência de ferramentas de inteligência artificial pode levar à perda.

profissionais usando inteligência artificial no ambiente de trabalho
profissionais usando inteligência artificial no ambiente de trabalho. Imagem: Unsplash.

Pesquisas recentes indicam que a crescente dependência de ferramentas de inteligência artificial pode levar à perda.

O impacto da inteligência artificial nas habilidades profissionais

O avanço e a popularização das ferramentas de inteligência artificial (IA) têm provocado debates importantes a respeito dos seus efeitos para o desenvolvimento e manutenção das habilidades profissionais. Pesquisas recentes apontam que a dependência crescente desses recursos pode provocar o fenômeno conhecido como “deskilling” (desqualificação profissional), ou seja, a perda gradual das competências humanas à medida que tarefas cognitivas são delegadas às máquinas.

Uma pesquisa realizada com profissionais da saúde nos Estados Unidos revelou que 70% dos enfermeiros e 77% dos médicos estão preocupados em perder suas habilidades tradicionais em virtude do uso frequente de sistemas baseados em IA. Essa apreensão reflete uma preocupação concreta sobre o impacto que o uso excessivo dessas tecnologias pode ter na qualidade do desempenho e no conhecimento clínico dos profissionais.

Estudo na Polônia evidencia riscos na prática médica sem apoio da IA

Um dos estudos mais emblemáticos sobre o tema envolveu médicos especialistas em endoscopia na Polônia. Estes profissionais, com pelo menos 2.000 colonoscopias realizadas em suas carreiras, passaram a utilizar um sistema de IA capaz de analisar imagens em tempo real e sinalizar um tipo de lesão intestinal precancerosa chamada adenoma.

O sistema foi disponibilizado em dias alternados, permitindo comparar o desempenho com e sem o auxílio da tecnologia. Antes da implementação da ferramenta, a taxa de detecção de adenomas era de 28,4%. Após o uso da IA, nos dias em que os médicos atuaram sem o sistema, essa taxa caiu para 22,4%.

Publicado na revista científica The Lancet Gastroenterology and Hepatology, o estudo sugere que mesmo profissionais altamente experientes podem apresentar queda na performance quando acabam dependendo da inteligência artificial para a tomada de decisão importante. Os autores apontam que a exposição contínua à ferramenta pode deixar os clínicos menos motivados, menos atentos e menos responsáveis na tomada de decisões cognitivas sem assistência da IA.

IA e o aprendizado em programação: desafios para assimilação de conceitos

Além do campo da saúde, a programação também tem sido foco de estudos sobre os efeitos da dependência de IA. Uma pesquisa realizada pela empresa Anthropic, especializada em inteligência artificial, envolveu 52 engenheiros de software que realizaram uma tarefa básica de codificação. Metade teve acesso a um assistente de IA, enquanto a outra metade realizou a tarefa sem apoio direto da tecnologia, embora todos pudessem pesquisar na internet.

Após a atividade, os participantes responderam a um questionário sobre o conhecimento adquirido. O grupo com suporte da IA teve desempenho inferior, com média de 50% de acertos, comparado a 67% do grupo sem IA. A maior dificuldade do grupo assistido pela IA foi diagnosticar erros no código, indicando que, apesar de poderem executar a tarefa, tiveram dificuldade em assimilar os conceitos fundamentais relacionados ao código produzido.

Esse resultado é preocupante especialmente para estudantes e jovens profissionais, pois mostra que embora a IA permita executar tarefas complexas, ela pode comprometer o aprendizado e a retenção de conhecimento profundo necessário para o crescimento profissional autônomo.

Contexto brasileiro e estratégias para o uso consciente da IA

No Brasil, que tem adotado aceleradamente soluções digitais baseadas em inteligência artificial em diversos setores, como saúde, tecnologia e serviços, as evidências sobre os riscos de dependência excessiva da IA reforçam a importância do uso consciente dessas ferramentas.

Profissionais brasileiros precisam fortalecer suas competências básicas e entender a IA como um recurso complementar, que complementa — mas não substitui — o conhecimento e a prática adquiridos ao longo do tempo. Compreender as limitações das ferramentas e manter uma postura crítica em relação aos resultados gerados é fundamental para preservar a autonomia técnica e garantir a segurança das decisões profissionais.

Além disso, instituições educacionais e empresas podem incentivar metodologias de ensino e trabalho que combinem o uso da inteligência artificial com práticas tradicionais, incentivando o pensamento crítico, o aprofundamento do aprendizado e a retenção de conhecimentos essenciais, evitando assim a degradação das habilidades.

Perspectivas futuras e importância da pesquisa contínua

Embora já existam indícios preocupantes sobre o fenômeno do deskilling induzido pelo uso da inteligência artificial, especialistas ressaltam a necessidade de ampliar as pesquisas para compreender melhor seus impactos nas habilidades profissionais e para desenvolver estratégias que mitiguem efeitos negativos.

O grande desafio das próximas décadas será encontrar um equilíbrio entre as capacidades humanas e artificiais, para que as máquinas complementem as habilidades humanas sem substituí-las completamente, preservando o raciocínio crítico e o conhecimento especializado necessários para profissões complexas.

O debate e a investigação contínuos sobre o uso responsável e consciente da IA são essenciais para garantir que essas tecnologias sejam verdadeiras aliadas no avanço profissional, promovendo melhorias sem comprometer as competências humanas essenciais.

Informações editoriais

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Autor Tiago Oliveira
Categoria IA

Fonte: Scientific American