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Dessalinização: tecnologia global crítica que demanda energia nuclear para suprir a crise hídrica

Com a escassez de água potável crescente em diversas regiões do mundo, a dessalinização se consolida como solução.

Instalação de dessalinização integrada a usina nuclear
Imagem com texto em ingles rejeitada na selecao automatica. Imagem: Forbes.

Com a escassez de água potável crescente em diversas regiões do mundo, a dessalinização se consolida como solução.

A crise global da água limpa e o papel emergente da dessalinização

Embora mais de 70% da superfície terrestre seja coberta por água, apenas cerca de 2,5% é água doce, grande parte dela inacessível, estando aprisionada em geleiras ou aquíferos profundos. A crescente demanda por água potável, intensificada pelo crescimento populacional, urbanização acelerada, desenvolvimento agrícola e industrial, além das mudanças climáticas, tem agravado a escassez de água limpa em várias regiões do planeta, inclusive em países desenvolvidos.

Um relatório do Banco Mundial de 2025 destaca a redução preocupante dos reservatórios de água potável somada à crescente demanda, caracterizando um fenômeno chamado “mega-secas” que ameaça a segurança hídrica global. Esse quadro reforça que a crise não é apenas de disponibilidade hídrica, mas especialmente de acesso à água limpa, essencial para a saúde pública e o desenvolvimento sustentável.

Dentro desse contexto, a dessalinização — processo de remoção do sal e minerais da água do mar ou salobra — assume papel estratégico para ampliar a oferta de água potável, particularmente em áreas costeiras e regiões semiáridas, tornando-se uma tecnologia vital para o futuro da gestão hídrica mundial.

A expansão global da dessalinização e seus desafios energéticos

Atualmente, existem mais de 20 mil usinas de dessalinização em operação distribuídas por cerca de 150 países, sendo que o mercado global movimentou aproximadamente R$ 124 a 144 bilhões em 2025. Com taxas anuais de crescimento entre 9% e 12%, projeções indicam que o setor pode alcançar um valor de mercado superior a R$ 337 bilhões na próxima década.

O Oriente Médio e a África lideram essa indústria, com enorme dependência histórica desse método devido à extrema escassez de água doce natural — na região do Golfo Pérsico, por exemplo, há cerca de 3.400 usinas em operação. Na Arábia Saudita, a capacidade de dessalinização deve saltar de 5,6 milhões de metros cúbicos por dia, em 2022, para 8,5 milhões até 2025.

Entretanto, a dessalinização é um processo intensivo em energia. A tecnologia dominante para dessalinização de água do mar é a osmose reversa, que emprega bombas de alta pressão para forçar a passagem da água através de membranas que retêm sais e impurezas. O consumo energético médio está entre 2,5 e 4 kWh por metro cúbico de água produzido, representando de 40% a 50% do custo operacional das usinas. Atualmente, a maior parte dessa energia provém de combustíveis fósseis, como gás natural e óleo, especialmente no Oriente Médio e partes da Ásia, o que torna o processo altamente emissor de gases de efeito estufa e pouco sustentável ambientalmente.

A vantagem da água salobra e tecnologias complementares

Além da água do mar, a dessalinização da água salobra, que possui concentração de sais significativamente menor que a água do mar, é uma alternativa promissora, com benefícios energéticos relevantes. A recuperação de água doce a partir de águas salobras pode atingir entre 70% e 90%, comparado a cerca de 50% para água do mar, o que reduz o consumo energético por volume de água produzida.

Nos Estados Unidos, a dessalinização de água salobra foi adotada desde a década de 1960, com mais de 300 usinas em funcionamento, principalmente nas regiões Oeste, Centro-Oeste e Flórida. O método utilizado para dessalinização de águas salobras é a eletrodiálise, que usa campo elétrico e membranas seletivas para remover íons de sal de modo energeticamente eficiente.

Apesar do potencial elevado, o aproveitamento da água salobra ainda é limitado, necessitando de investimento em pesquisa, tecnologia e infraestrutura para aumentar sua participação na matriz hídrica, especialmente em locais afetados por secas prolongadas e distantes da costa.

Energia nuclear como fonte confiável e sustentável para dessalinização em larga escala

Dada a elevada demanda energética da dessalinização e a necessidade urgente de redução das emissões de carbono, a energia nuclear surge como opção técnica e ambientalmente vantajosa. Ela oferece geração contínua e estável de eletricidade e calor, independentemente das condições climáticas, com vida útil estimada em até 80 anos, muito superior à de fontes renováveis como solar e eólica, que duram em média 25 a 30 anos e dependem de armazenamento em baterias para garantir estabilidade.

Países como Índia, Rússia, Coreia do Sul e China já possuem projetos e demonstrações de usinas de dessalinização alimentadas por energia nuclear. Os porta-aviões nucleares da Marinha dos EUA utilizam sistemas nucleares para dessalinizar até 1.500 metros cúbicos diários, destacando a aplicabilidade e eficiência da combinação dessas tecnologias.

Recentemente, os pequenos reatores modulares (SMRs, na sigla em inglês) vêm ganhando destaque devido à sua capacidade de produção entre 50 e 300 megawatts, porte adequado para integração em instalações de dessalinização. Os SMRs têm potencial para viabilizar economicamente a produção sustentável e de longo prazo de água dessalinizada com baixas emissões de carbono, podendo até fornecer calor para etapas térmicas do processo, aumentando a eficiência geral.

Considerações ambientais, impactos para o Brasil e desafios futuros

Um desafio ambiental da dessalinização é o manejo do rejeito salino, ou salmoura (brine), com concentração de sais duas vezes maior que a da água do mar. O descarte inadequado pode causar danos aos ecossistemas marinhos, como redução de populações de peixes e mortalidade de corais, evidenciado principalmente em áreas do Golfo Pérsico sem tecnologia eficaz de dispersão da salmoura.

Tecnologias como difusores multipoço e gerenciamento específico do local permitem minimizar impactos ambientais, e a salmoura também apresenta potencial para extração de minerais valiosos, como lítio e magnésio, podendo se tornar recurso econômico.

No Brasil, embora o volume de água doce seja abundante, regiões como o Nordeste enfrentam desafios hídricos crônicos. A dessalinização associada a fontes energéticas limpas como a nuclear poderia aumentar a segurança hídrica local e promover a adaptação às mudanças climáticas. Entretanto, o desenvolvimento dessas soluções exige políticas integradas, investimentos robustos, pesquisas tecnológicas e diálogo com a sociedade para superar barreiras técnicas, econômicas e sociais.

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Autor Tiago Oliveira
Categoria Tecnologia

Fonte: Forbes