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Intimidade artística roubada: a angústia dos músicos com o uso da IA em suas músicas

Músicos denunciam uso não autorizado de suas obras para treinar IAs, evidenciando desafios éticos e legais na música.

musician expressing concern about AI and music
musician expressing concern about AI and music. Imagem: Unsplash.

Músicos denunciam uso não autorizado de suas obras para treinar IAs, evidenciando desafios éticos e legais na música.

Músicos de Aotearoa denunciam roubo de suas obras para treinar IA

Durante sua turnê europeia, a cantora Vera Ellen, indicada ao Taite Prize em 2024, guardou para o final dos shows a apresentação da canção 'Broadway Junction', uma música carregada de emoção e inspiração pessoal sobre momentos difíceis que viveu. No entanto, Ellen descobriu que essa e outras faixas do álbum Ideal Home Noise foram utilizadas sem sua autorização para treinar modelos de inteligência artificial (IA).

Essa descoberta se deve à ferramenta IA Watchdog, lançada pelo jornal The Atlantic, que permite pesquisar grandes bases de dados usadas por empresas de tecnologia para alimentar seus sistemas de IA. O levantamento revelou que centenas de músicas de artistas renomados da Nova Zelândia, como Aldous Harding, Lorde e Bic Runga, aparecem nesses bancos, sem concessão de licenças ou qualquer tipo de compensação.

APRA AMCOS, organização que representa autores e compositores, declarou que essa apropriação não autorizada constitui um roubo do trabalho de vida desses artistas. O impacto emocional para os músicos tem sido enorme, considerando que suas criações mais íntimas e pessoais estão sendo usadas de forma indiscriminada e sem respeito.

O impacto prático para os artistas e a indústria musical

Para Vera Ellen, a sensação de ter seus momentos mais pessoais transformados em dados foi especialmente perturbadora. A cantora compartilhou em suas redes sociais o cansaço e a frustração frente ao que chamou de exploração por grandes empresas bilionárias, que se apropriam da criatividade dos músicos para benefício próprio, retribuindo apenas migalhas.

Bic Runga, outra artista afetada, também manifestou preocupação com a incorporação até de elementos culturais vitais, como o waiata (canções tradicionais), o idioma Māori e o haka, em datasets de IA, que depois reproduzem versões distorcidas dessas expressões culturais. A perda de controle sobre seu próprio trabalho criativo e cultural revela um risco grave para a autenticidade artística e para a integridade cultural.

Além disso, artistas como Kane Strang enfatizam que esse modelo abrevia uma 'escada quebrada', questionando como a IA poderia, no longo prazo, beneficiar compositores trabalhistas, quando seu próprio material é subtraído sem autorização. A demanda é por transparência, consentimento e remuneração justa, em um momento em que leis parecem atrasadas diante da tecnologia.

Tensões globais e promessas controversas em torno da IA e direitos autorais

No cenário australiano, relata o jornal The Guardian, empresas de tecnologia têm prometido investir bilhões em infraestrutura de dados e fundos para criativos em troca de leis de direitos autorais mais flexíveis. Para senadores locais e músicos, esse pacto evidencia uma atitude oportunista e desrespeitosa com os artistas, chamada por alguns de 'o acordo mais sujo'.

Bernard Fanning, do Powderfinger, denunciou o apagamento da autoria humana na criação artística, alertando que delegar histórias e criatividade a máquinas empobrece a profundidade do pensamento humano. Já Jane English, do Spiderbait, falou da indignação por ver seu legado roubado e usado sem permissão ou pagamento, configurando um grave problema de justiça e ética.

No entanto, a dificuldade de provar o que seria efetivamente 'roubo' complica o debate jurídico. Ter o mapa do cofre não significa tê-lo aberto, e o uso dos bancos de dados ainda gera controvérsias sobre o que pode ou não ser legalmente considerado apropriação.

Avanços e necessidades regulatórias em Aotearoa e no mundo

Enquanto países como Austrália avançam em debates sobre investimentos e regulamentações, em Aotearoa os diálogos ainda são iniciais. No relatório Music & IA divulgado pela APRA, o diretor-executivo Dean Ormston reforça o pedido por base regulatória que assegure a transparência, respeito e remuneração para os criadores, refletindo o anseio quase unânime dos músicos.

Vera Ellen se posiciona como porta-voz de centenas de colegas, preocupada com as consequências dessa exploração para as futuras gerações de artistas. Ela destaca que o momento atual é crucial para aprender, se mobilizar e buscar mudanças na proteção dos direitos autorais frente à evolução tecnológica.

O cenário global da música enfrenta o desafio de conciliar inovação e valorização humana, evidenciando a necessidade urgente de políticas que não deixem a arte vulnerável ao avanço desenfreado da inteligência artificial.

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Autor Tiago Oliveira
Categoria Tecnologia

Fonte: Google News Technology